"Pedras no caminho? Guardo-as todas, um dia vou construir um castelo... " Fernando Pessoa

03
Mar 17

Enquanto percorro o traços imaginários dos meus passos, existem outros traços imaginários que se cruzam. Imaginários, mas reais. Aqui, ali e em todo o lado...há tanto que se esconde, que não se contenta com a superfície e procura os oceanos profundos de cada um. 

 

Existe uma imensidão de azul, nesse oceano, que se transforma lentamente em um tom mais escuro, e mais outro, e outro, até que já não existe cor, só falta de luz. No subsolo, lá nas profundezas do ser, vive tanto de nós, e tão pouco são aqueles que conhecem esse nível raso de nós próprios. Gostamos de pensar, ou fazer os outros pensarem, que somos feitos de água translúcida e pequenos fragmentos de matéria supérfula, de sorrisos faceis e palavras leves. Mas não existe leveza na superficialidade. Existe a ilusão de leveza. Porque ninguém quer descer onde não se vê o céu, a linha ténue entre um anoitecer e o dia que agora se põe.

 

Então, será que podemos dizer que vivemos no Crepúsculo da nossa imensidão? Nas nossas costas carregamos a escuridão do que nos marcou e nos ensinou o que é a gravidade.Não a gravidade do espaço. A gravidade da vida. Há quem flutue ignorando todo o mundo que está por baixo, mas a vida nos ensina que o caminho se faz debaixo para cima. Se ignorarmos toda a escurião, só saberemos deambular pela claridade. Parece um passeio fácil e feliz, mas a ingenuidade e a inocência torna-nos incautos. Como seria bom ser ingénuo e ser sábio, ao mesmo tempo. Como seria bom saber tudo sobre os pequenos becos da base escura de nós mesmos, sem sentirmos medo ou dor. 

 

Quem se deixa flutuar e ignora a caixa de pandora caída lá no fundo daquele oceano, perdida na escuridão e imensidão da noite do nosso ser. Ao ignorar, não se consegue conhecer todos os males que assolam o Mundo. Mas nem tampouco o valor da esperança, principalmente num mundo tão superficial como este, onde vivemos. 

 

Trago comigo o meu oceano particular, os meus vários tons de azul. Daqui, do lado de fora parece que só existo. Ninguém sabe, ninguém sabe a profundeza dos vários tons, a itensidade da gravidade que me obriga a lidar com os tons mais escuros, os dias mais tristes, mas memórias mais dolorosas. Ninguém conhece a intensidade do meu Crepúsculo, ou o que sindo quando vejo a água translúcida que também faz parte do meu eu...

...Nem ninguém sabe o que cada um com sente para um céu carregado de nuvens, com uma pequena abertura entre elas, de onde irradia um sol que vem de muito longe, e já viu mais do que alguma vez veremos. Ninguém sabe, mas toda a gente presume saber. Toda a gente se acha no direito de julgar. Para cada janela da alma que finta esse sol, há um imenso oceano por detrás. Só quem ignora o seu, poderá julgar quem mergulha, quem cede à gravidade, quem cede aos medos, quem cede ao choro, quem cede ao despero, quem carrega consigo todas as suas dores sem as declarar como somente suas. 

 

Somos particulas do Cosmos. Mas mesmo dentro de uma partícula, cabe um infinito em expensão. É essa a nossa a dimensão. E a dos outros. Alguns com Universos cheios de luz, de estrelas e planetas. Outros perdidos nos buracos negros do seu próprio Universo. 

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publicado por Quem ontem fui já hoje em mim não vive às 17:29

12
Abr 16

Existe uma palavra que corre solta e facilmente por aqui e por ali...a palavra gentileza.

 

Gentilmente, deveríamos de julgar menos, respeitar mais. A minha dor não é a tua, e a tua não é a minha. Só nós temos acesso aos confins do eu. O filme da nossa vida, onde estão todas as nossas memórias,alegrias, tristezas, sofrimentos, erros e aprendizagens, não passa numa sala de cinema, mas dentro de nós.

 

Gentilmente, deveríamos nos conectar mais, ter mais empatia. Se olhas para os teus pares como seres humanos, e não como indivíduos de outra nacionalidade, de outra etnia ou outra cultura, então pratica um exercício todos os dias, pondo simplesmente a questão: e se fosse eu? Colocarmo-nos nos pés dos outros, ter empatia, enriquece-nos quanto eu, enquanto nós, humanidade.

 

Gentilmente, deveríamos ser mais cientes do passado para construir um futuro melhor. Os erros foram feitos para aprendermos com eles. É certo que viver não é fácil, e a vida não vem com um manual de instruções. Mas ao menos, aproveitamos os erros para saber o que não fazer, ou fazer diferente.

 

Gentilmente, deveríamos amar mais e odiar menos. Amar não é só um verbo, então não o uses de forma leviana. Ama com os actos, não somente com as palavras.

 

Gentilmente, sê gentil. Acredita, é contagioso.

 

 

publicado por Quem ontem fui já hoje em mim não vive às 22:51

22
Jan 16

Há uns dias atrás passei por uma paragem de autocarro, e vi um Sr. de cadeira de rodas a tentar entrar num autocarro público da cidade do Porto. Supostamente, estes autocarros públicos estão preparados para pessoas com deficiência física, ao serem mais baixos e terem uma plataforma elevatória que lhes permite entrar e sair com bastante facilidade. Pois, supostamente têm. Esse Sr. tentava, com todas as limitações que tem, puxar a plataforma, que supostamente se abre automaticamente. Mas não, ela não se abria de maneira nenhuma. Eu tentei, um outro Sr., o próprio motorista tentou abri-la...nada. O Sr., de olhos tristes e voz conformada, disse ao motorista "é o 4º autocarro que passa e tem o mesmo problema." Enumerou vários números de autocarros que já passaram onde ele, ali, só, preso a uma cadeira de rodas e num dia chuvoso, tentou entrar, sem sucesso. O motorista ofereceu-se, junto com outras pessoas, para o ajudar entrar doutra maneira. O Sr., cabisbaixo recusou. "E depois, como é que eu saio? Não, deixe estar..." 

 

O medo de incomodar o próximo, de ser um peso maior que o próprio peso que já carrega, era evidente. 

 

Para quem não tem esse tipo de problema, não é possível ver o porquê da urgência em concertar algo tão simples. E se fosse uma porta normal que não abrisse? Talvez o autocarro parasse até estar apto para circular. Mas uma rampa, fundamental para um portador de deficiência física, é algo secundário que pode esperar. Todos os dias colaboramos numa segregação constante, de forma inconsciente, que leva a que muita gente que já vive em solidão e completamente limitada, acabe ainda por se sentir a mais, vivendo na sombra, sem querer incomodar ninguém, sem querer sem um fardo.

 

Este tipo de segregação já acontece desde que surgiu a espécie humana. Mas foi evoluindo de uma forma cruel, que não conhece limites. Então, hoje em dia, existem milhares de culturas distintas no Mundo, mas será que algum desses sítios é aquele sítio onde todos são olhados como iguais, têm as mesmas oportunidades e vivem em harmonia, trabalhando em conjunto para o bem da comunidade?

 

Na Antiga Grécia, onde surgiu o conceito de Democracia, a ideia era tão boa...uma boa utopia. E com a evolução e as diferentes culturas surgiram várias formas de manipular massas, de furar o sistema,de segregar pessoas da sua própria cultura ou outras, com a desculpa que eram precisamente...diferentes.

 

Ser diferente, a grande virtude de sermos Humanos, demarcou-nos e demarca-nos ainda em praticamente tudo. Não nos basta o facto de sermos únicos, de não haver mais ninguém num universo de aproximadamente 7 biliões de pessoas. A ambiguidade e complexidade do Ser Humano leva-nos a separar o bom do mau, mas isso depende da perspectiva de cada um. Então fica a pergunta, o que é realmente bom e o que é realmente mau? A ambição pode ser visto como algo bom, mas quando isso leva a que esse pequeno (grande) facto de sermos únicos não ser suficiente, então transforma algo bom em mau. Para tudo na vida é necessário um meio termo, mas meios termos não faz parte dos genes humanos. Pelo menos não na esmagadora da maioria. Vou usar o meio termo e não meter toda uma espécie no mesmo "saco". 

 

Sempre houve essa necessidade de termos mais: mais que os outros, mandarmos mais que o outro, ser mais sábio. Ponto, e recomeça a conversa do meio termo, do bom e do mau. O saber não ocupa lugar, diz o provérbio. É bem verdade, cultivar-nos ajuda-nos a atingir um patamar onde esse meio termo, a contenção e a simplicidade nos ajudam a ter uma vivência mais plena e mais atenta ao que nos rodeia, de forma positiva e activa. Mas, a sabedoria também pode servir o lado oposto, o do mal. E em tantas situações o Ser Humano aproveitou-se do facto de saber mais num plano que lhe favorece, para ludibriar quem vive a sua vida de forma ingénua e inocente, virando essa forma de viver contra eles mesmo, culpando isso mesmo por terem sido enganados. Assim fizerem os primeiros comerciantes de escravos com as pessoas africanas, e o mesmo aconteceu com os colonizadores que queriam converter os índios dos países que "descobriram" e, como tal, agora era deles.

 

Em pequenos passos se traçaram personalidades de nações inteiras: nos EUA os europeus colonizaram o território, vendiam "pretos" em praças públicas como quem vende um naco de carne, e chamaram mais europeus para conquistarem terras através de corridas e afins - a isto chamaram de justo - sendo que antes "limparam" a terra dos seus verdadeiros donos, os nativos americanos, para poderem fazerem o que é justo à vontade. Assim se criou a terra das oportunidades...oportunidades para um, tortura para outros. A escravidão era algo natural, algo que era amplamente aceite e que toda a gente foi conivente, só porque essas pessoas eram diferentes, "bichos". Mas, voltando ao uso do bom senso, quem seriam os "bichos" nessa altura? Não é natural usurpar a vida de alguém, de outro ser humano, se apossar dela e fazer dela o que bem entender, seja isso violar, matar, torturar, pôr a trabalhar em troco de nada. Mas nessa altura era "normal"... E para quem olha horrorizado e tente imaginar como seria viver assim, pense que isso ainda hoje acontece um pouco por todo o Mundo, mas desde que não seja à nossa frente, e passemos longe por esses lugares, podemos viver alegremente na ilusão que isso é História, Passado e não Presente. 

 

Esse hábito de conviver com a maldade e crueldade humana está impregnado em toda a gente. Fechar os olhos é já automático, olhar de lado não tem nada de mal, e então falar em voz baixa de alguém que tem o cabelo assim ou assado, de 2 pessoas do mesmo sexo que se amam e não escondem isso em público, ou automaticamente pensar que um mestiço ou "preto" é mais propenso a roubar-nos que o Sr. engravatadinho que passou ao nosso lado, e até nos tirou a carteira do bolso sem nos apercebermos. Somos, no geral, uma sociedade hipócrita e altamente preconceituosa. E isso vê-se claramente na recente crise dos refugiados que estão a chegar à Europa. 

 

Nesta altura, a nossa identidade e personalidade altamente preconceituosa está completamente exposta e não adianta esconder, mesmo usando a suspeita que no meio deles há terroristas. Além da tão boa desculpa "primeiro temos que usar os nossos e depois os outros", sendo irónico que tanta gente fale assim, quando nunca tiveram um gesto na vida para ajudar quem quer que fosse, e morrem de medo de um mendigo que se aproxime a pedir comida. Além disso, se formos pela lógica, porque é que os terroristas precisam se infiltrar, correr risco de vida para chegar à Europa se, nomeadamente, o estado islâmico tem pessoas com passaportes de vários países europeus nas suas fileiras, que podem simplesmente apanhar um avião com a desculpa que vão visitar a família? Depois vem mais uma desculpa: eles são DIFERENTES, são de uma cultura retrógrada, e vão atacar as nossas mulheres, e criar conflitos na nossa sociedade. O que aconteceu em Colónia, na Alemanha foi então ouro sobre azul, que validou todas as suspeitas levantadas. Mas aí voltemos ao bom senso e à lógica: porque é que 1000 homens, que passaram tantos dias de sacrifícios, correram perigo de vida, eles e as suas famílias (muitas mulheres e crianças incluídas) iriam chegar finalmente vivos à Alemanha, e iriam se organizar para atacarem mulheres? Os grupos de extrema direita foram quem divulgaram tudo isto, notícia que só surgiu 5 dias depois de, alegadamente, terem acontecido. E aí, é só juntar dois mais dois... 

 

Tantos europeus, e pessoas de outros continentes, culturas, etc., falam do alto da sua arrogância e preconceito como se aquele povo, que já sofreu tanto, mas tanto, que não temos sequer noção das atrocidades que viveram ou presenciaram, fosse diferente, inferior ao nossos. Isto é somente uma hipocrisia que sempre existiu a vir à tona. Os franceses foram pioneiros no que diz respeito a catalogar os direitos humanos, abriram portas à imigração, mas somente porque lhes convinha, porque precisavam de pessoas que trabalhassem no que eles não queriam trabalhar, e praticam diariamente (não todos, claro) um preconceito demarcado contra imigrantes, descendentes de imigrantes, pessoas de cor, raça diferente, cultura diferente. Se tentarmos perceber o porquê dos incidentes nos subúrbios de Paris à uns anos atrás, chegamos facilmente à razão pela qual a França é o país ocidental que mais cidadãos da sua nacionalidade tem nas fileiras do Estado Islâmico. Aí reside a ironia: os precursores dos direitos humanos ajudaram à criação de bairros, gerações inteiras completamente marginalizadas e que dificilmente terão acesso às mesmas oportunidades de trabalho, de qualidade de vida que os franceses "puros" tem, mesmo que já sejam a terceira, quarta, quinta geração a nascer em França.

 

A Merkel foi das poucas lideres europeias que abriu os braços aos refugiados. Por esta altura, deve estar arrependida, por certo, mas ela não o fez por ser uma alma caridosa e preocupada com os sírios e demais povos que fogem de realidades que nem sequer podemos imaginar. Simplesmente a Alemanha está no topo da economia europeia, detêm a hegemonia do poderio económico o que resulta numa necessidade muito grande de mão de obra. Ora, tendo em conta de que os alemães não estão lá muito dispostos a se dedicarem a trabalhos onde não ganhem o que achem justo, e os europeus do sul deixaram de acreditar em contos de fadas, acolher um povo sem perspectivas de futuro, desesperado por uma oportunidade para ter uma luz ao fundo do túnel, pareceu-lhe a oportunidade perfeita: pessoas eternamente gratas vão de encontro à demande de mão de obra, e ainda por cima barata! "Ora, se vos acolhemos, demos de comer e uma possibilidade de lar, o mais justo é retribuir". O "justo", sempre o "justo". 

 

Se procuramos por sociedades bem sucedidas e que efectivamente funcionam, podemos olhar para os países escandinavos, como a Noruega, Finlândia, Suécia... Pois, são países que tudo parece funcionar bem, mas quem tem em vista imigrar para lá (são destinos óptimos para tal) não espere facilidades. Estes países agradecem mão de obra, mas mão de obra qualificada. Para se viver numa sociedade quase perfeitamente igualitária, há que aceitar que temos que ter mérito para lá chegar e concorrer de igual para igual com os povos locais, ou outros. Mas o sistema do "méritometro" é outra versão (completamente distorcida) de preconceito e segregação. 

 

E porque não falamos no nosso lindo país, Portugal? Pois, nisso posso falar bem, já que sou portuguesa e (infelizmente) vivo aqui. Já fomos a nação mais rica e poderosa do mundo, até que, aquando das invasões francesas, D. João VI decidiu fugir para o Brasil com a sua corte, e abandonar os portugueses à sua sorte. De nação poderosa e respeitada, passamos a lambe botas eternamente gratos aos nossos amigos e aliados ingleses, que ocuparam Portugal enquanto Carlota Joaquina se divertia com as suas conquistas amorosas e D. João VI dedicada grande parte do seu tempo a...comer. Pela imensa gratidão, doamos grande parte do nosso território em África, herança (essa também manchada por algumas práticas ditas "normais" na época) de um outro tipo de povo português, corajoso e empreendedor, e fomos descendo, descendo, descendo, até chegarmos aos dias de hoje. Nos últimos anos, tivemos um primeiro-ministro, que "à là D. João VI" nos abandonou, deixou Portugal de tanga, para aceitar o tachinho de Presidente da Comissão Europeia. Tivemos outro primeiro-ministro que roubou descaradamente o que pode, demitiu-se quando não estava mais para aturar isto, foi estudar filosofia e Paris, onde vivia numa casa luxuosa que comprou com o direito que roubou dos contribuintes, e, tal como cereja no topo do bolo, voltou para Portugal...para ser comentador de política no canal PÚBLICO!! Lá voltou para França para uns tempos mais tarde ser preso por corrupção. Hoje está em liberdade, e continua a aparecer com a cara mais deslavada que alguém poderia ter. 

 

Continuando nos belos chefes de estado que tivemos, falamos também do último antes deste, que aquando das reuniões sobre a crise na Grécia se mostrou firmemente contra a ajuda monetária à Grécia, com o pormenor de ser primeiro ministro de um país que estava sob resgate financeiro do FMI e, tal como a Grécia, sob os olhares atentos da União Europeia. 

 

Aqui, há muitos anos, viveram-se os tempos das vacas gordas. Havia dinheiro, o banco emprestava dinheiro a toda a gente, e vivia-se bem. Era um povo altamente desqualificado, que teve acesso a pouco educação. Então, a geração seguinte cresceu a ouvir "se queres ser alguém na vida, estuda, meu filho". E nós estudamos. Investimos em nós como nem loucos, gastamos dinheiro, contraímos empréstimos, para "ser alguém na vida". E aí, chegamos ao mercado de trabalho, muita gente sem nunca ter trabalhado na vida, ou seja, trabalharam para o bronze na doce vida de estudante. E aí, quando estavam aptos, depois de terem investido em si mesmos, onde estava o trabalho? Trabalho havia, mas era igual se tivessem estudado ou não: trabalho mal pago, horas e horas não remuneradas, profunda instabilidade e certezas para o futuro, praticamente nenhumas. Estamos a pagar os erros, as dívidas das gerações passadas, estamos a pagar algo para o qual não contribuímos em nada. E ainda tivemos um primeiro ministro, o mesmo "rico" que era contra ajudar a Grécia, que nos disse que se não estávamos satisfeitos, que fossemos para a Grécia. Um homem que nunca trabalhou na vida, que até aos 37 anos só tinha no currículo cursos universitários e acções partidárias. Os "padrinhos" do partido lá lhe arranjaram trabalhos em administrações de grandes empresas, ou seja... este homem, que nos manda imigrar se "não estivermos contentes" nunca trabalhou na vida. Nunca teve que ser tratado como menos do que merecia, nunca teve que suportar o facto de colegas que entraram à bem menos tempo que eles ganharem mais que ele, nunca trabalhou horas de graça porque "se não concordas as portas da rua estão abertas", nunca teve que viver com um salário que nunca chega. 

 

Então, pensando nisto tudo, como é possível que após milhares de anos de evolução, ainda estamos neste ponto? Num ponto em que olhamos para os que sofrem em África como coitadinhos esfomeados, mas somente isso, porque se estão longe não é problema nosso; num ponto em que nos achamos muito humanos porque defendemos os nossos em detrimento dos estrangeiros/ refugiados/ pseudo-terroristas, mas na verdade nada fazemos pelos nossos e até o olhamos de lado? Num ponto em que o simples facto de se ter deficiências físicas é um entrave tão grande no dia a dia quem nem dá vontade de sair de casa?

 

Somos, mundo "civilizado", uma sociedade profundamente doente. De um lado do mundo, há quem morra de fome, do outro há toda uma geração que sofre de uma doença depressão, que tem distúrbios alimentares que os levam a comer e comer até serem obesos, uma sociedade que auto-aniquila e segrega quem não viva segundo as suas regras. Felizmente, há muita gente que vê o Mundo como um todo, que usa a cabeça para pensar, e não a dá voluntariamente como espaço vazio para manipulação alheia. Ainda há esperança, tanta como a hipocrisia e arrogância da aristocracia falida e patética que acha que vale mais do que o sorriso de uma criança, do que alguém que só quer viver praticando o bem no meio das bombas que caiem à sua volta. 

 

publicado por Quem ontem fui já hoje em mim não vive às 19:34

27
Jul 15

Tango. Poderia ser esta dança a representação da vida? Uma dança díficil, sofrida, cheia de sentimentos contraditórios, mas que perante o amor e a paixão, abranda, transforma a fúria em contemplação.

 

Fiz da contemplação a minha arte. Mas contemplar não basta, porque para conseguir interpretar essa arte, há que sentir, há que viver, sentir o sangue a correr veloz nas veias, como essa vontade de viver, de ser, de fugir, gritar ou somente de ouvir o eu. Aquela voz, suave, que se eleva no silêncio do contemplar do momento. Essa arte, exige tanto, não vem só, não vem com ninguém, somente a vida nos dá as ferramentas, cabe-nos a nós construir a jangada. 

 

E no meio das equações dificéis, é tão fácil simplesmente baixar os olhos, e simplesmente não ver. Tolo de quem pensa que olhos fechados afastam a contemplação. Vemos com tanto de nós... Não podemos fugir do que está dentro de nós, tal como não podemos fugir da chuva quando ela aparece de repente num dia de verão. 

 

Caminhar por entre as gotas da chuva tem o que se lhe diga. É uma metáfora que serve de barco à ilusão de que podemos fugir à vida, ao imprevisto, ao que foi feito para nos ensinar o que temos que aprender. E há tanta gente que viva na ilusão, muitos sem se dar ao trabalho de se desculpar em metáforas. 

 

O que realmente acontece dentro de nós, é, ao ínicio, como a explosão do Big Bang que criou o Universo. No nosso Universo particular, muitas coisas surgem de surpresa, sem avisar como a chuva de verão, envoltas em mistério, como uns passos mais apaixonados de Tango que brotam da nossa vontade de reagir ao sentimento desconhecido e arrebatador. No choque da criação de uma dúvida, de uma suspeita, de um desejo, todos nos sentimos confusos, atordoados. Então, tal como a criação do Universo, pequenas estrelas começam a aparecer, tímidas, por todo o infinito negro e desconhecido. E a luz é sempre tão forte que nos esquecemos de dar nome ao negro, e só vimos a luz. Quando estão perto, ofuscam os olhos, e volta a confusão, o encantamento de algo tão belo mas impossível de ver nitidamente, ai surge a verdadeira contemplação. Mas ela só é possível quando olhamos primeiro atentamente as estrelas que estão mais longe... As estrelas mortas, mortas sim, mas que existiram, e a sua luz que se vê ao longe torna-as em pequenas particulas de imortalidade. 

 

Só vemos a luz do presente, os pequenos sinais da vida, olhando para o passado, para aquela luz da estrela mais bela que já morreu, apesar de estar ali. A arte da contemplação é essa: aprender com o passado a ver atentamente o presente, tornado-nos ainda mais sábios e sensatos no futuro. 

 

Então, dancemos este Tango chamado vida? Ou seremos simplesmente espectadores das danças alheias? 

 

 

publicado por Quem ontem fui já hoje em mim não vive às 22:04

13
Jun 15

Passaram quase 5 anos desde a minha última públicação... Se tivesse escrito esta frase na minha velha máquina de escrever, demoraria uma eternidade barulhenta a fazer um simples "rewind"... Porque não, não vou começar este post assim, pelo menos não na sua essência. 

 

Na vida, é como na lenda: olhar para trás transforma-nos em pedra. A memória existe como exemplo comparativo, como nosso manual escolar da vida, ou seja, para não esquecermos os erros, para não voltarmos a repeti-los, para sabermos todas as aprendizagem utéis que adquirimos até aí, talvez para servir como aquele pequeno click parante as coincidências e obstáculos da vida. Viver no passado é diferente, é errado, é basicamente estar de costas para o futuro. Então, olhemos em frente, ou então para o presente. A vida acontece agora, e se estivermos realmente atendos, vemos que, tal como no Cosmos em geral, tudo pode acontecer, tudo é desconhecido e extremamente pequeno na escala do infinito.

 

O que é engraçado em tudo isto é que ego, ser abstracto e alucinado, por vezes é maior que o infinito ao quadrado, e quem se rege por essa coisa fica mergulhado num mundo construído por convenções, morais e manipulações colectivas. Tem lógica, se pensarmos bem, afinal quem tem quem alimente o seu ego, soube como montar as redes para apanhar o peixe, soube construír e dar a esse grupo o que ele quer, o que ele aceita como certo e como grandioso. Até a Deus foi dado um ego que o fez perante os olhos dos "tementes" a Ele, como um ser superior implacável, que castiga os seus filhos à base de pragas ou desgraças, ou sei lá o quê. O que nos criou a todos, sofreu por nós, é tido como ominipresente e representado como puro amor ou luz, vai ficar muito zangado se um dos seus filhos deitar um papel para o chão, e vai interferir com todos esses mundos paralelos, destino, karma, o que seja, para que esse seu filho seja castigado?

 

As prioridades andam trocadas, e os contextos manipulados. No fundo, tudo isto não interessa. E aí está o Santo Graal da nossa existência neste mundo: o que interessa é individual, é pessoal. Eu interesso-me por algo, e tu por outra coisa qualquer. E a vida que se faz olhando em frente existe muita introspecção, existe um auto-conhecimento, uma busca constante por isso. Porque na verdade, o essencial é descobrirmos quem somos, o que queremos e para onde queremos ir. Porque se não o fizermos, se nos regermos pelas convençoes, pelo colectivo, o nosso equilibrio não existe. Quem segue rebanhos, terá como bem e mal aquilo que lhe for ensinado e apontado. Onde pode haver equilibro numa alma sem esse tipo de discernimento? 

 

Para tudo isto, para esta jornada sem fim, que nos acompanhará até ao último fôlego, é indespensável a humildade. Sim, humildade. E digo-vos uma coisa: humildade não é sinónimo de pobre. É sim sinónimo de rico, pois rico do qual conseguir olhar para o passado e aprender verdadeiramente com os erros, admitindo-os a si mesmo, e, acima de tudo, perdoando. Porque há quem passe uma vida a errar sem aprender, alimentando o ego, esse ilusionista matreiro, e não deverá haver existência mais triste que essa. Porque só não erra, só não tem atitudes de bem e de mal, quem nunca viveu. Prefiro mil vezes ser olhada de lado por ser quem sou e admitir-lo, do que andar de cabeça baixa julgando e sendo julgada. 

 

Assim vamos em frente, nessa longa caminhada... Sendo nós, cada vez mais, olhando para trás cada vez menos.

 

 

 

 

publicado por Quem ontem fui já hoje em mim não vive às 22:03

23
Jul 10

Há quem apenas exista. Há quem viva.

 

Nos passos da multidão é fácil seguir a mesma corrente. Mesmo nos sentindo como alguem à parte, um mundinho à parte na galáxia imensa da via láctea, mesmo assim...nos iludimos com essa falsa independência.

Então, vamos andando andando e...paramos. Olhamos para trás. Onde estou? Quem são estas pessoas? De onde vim? PARA ONDE VOU?

E estamos, subitamente, no escuro. Rodeados de estranhos. Sentimos a brisa dos corpos que passam, mas... nada é real. Estamos sós. Olhares perdidos na mescla de constelações que compõem a escuridão imensa de uma casa sem janelas nem portas. Não se entra nem se sai. Apenas...estamos ali.

E vês no que te tornaste. Paraste de pensar, paraste de ouvir aquela música. Paraste de fazer sentido. Já não és tu. És algo. Um ponto microscópico no espaço sideral.

Todas as concepções que criaste na tua cabeça enquanto palmilhavas trilhos gastos, a ilusão de seres tu, um entre a multidão, mas não parte dela... Tornaste-te um corpo vindo de uma produção em série. Sem visão, sem ambição, sem qualquer elemento diferencior. És apenas o número que trazes impresso no braço.

Ai, do nada, tu sentes alguém dentro de ti a vir à tona no teu oceano particular. Ela da um grande suspiro de alívio. Suga o ar precioso que o teu acordar lhe despertou. Ela foi puxada varias vezes. Olhares, alguem te tentou puxar o braço varias vezes, enquanto indiferentes seguias a rota dos iguais. É uma sensação boa de liberdade, por entre confusão. Perguntas e mais perguntas vêm como balas de canhão. Mas ai percebes que nada importa. Ela está ali à tona, o teu verdadeiro eu. Ela voltou à superficie depois de mergulhada na indiferença dos dias fabricados pela sociedade.

E ela vê melhor que tu. Ela és tu. O teu verdadeiro eu. O que sabe a verdade sobre ti. É a enciclopédia do teu ser, que te veio dizer "Acorda". Ela notou aquele olhar. Há alguem, muito longe, mas sim, agora vês. Está alguém, igualmente parado a olhar para ti. Tem os olhos molhados, e respiração acelarada. Veio a correr, tentou te agarrar, enlaçar a sua mão na tua, atar o seu destino ao teu. Tu sentes tudo. Ele usou muitas palavras. Tu não ouviste ou não entendeste, não interessa... Mas agora, no silêncio dos espaços vagos deixados pelos satélites que seguem a rota comum dessa tal multidão...agora, não são precisas palavras. Agora sabes. Ela sabe. A que está à tona, cansada de lutar, de gritar, de tentar chamar a tua atenção...ela sabe quem ele é. Ela sorri, e sente-se salva.

Mas...

Tu não tens força nas pernas. Depois da longa caminhada inútil, estás sem forças. Deixaste-te cair de joelhos. E agora? Será que ele desistirá de vez de ti, será que tudo morrerá à beira da praia? Já paraste várias vezes. O teu eu já veio à superficie, e a sociedade tentou afoga-la outra vez. Fechas-te os olhos, e continuaste a caminhar. Mas agora é diferente. Estás parada, não continuaste como antes. Mas estás de joelhos. Será que ele ainda chegará a ti? Será que ele vai desistir?

 

É bom acordar. Mas às vezes acorda-se tarde demais. Espero que não seja o meu caso. Estou cansada, e tudo o que queria era ter-te aqui...Ai sim, poderia caminhar no meu sentido, no nosso, e não no sentido dos outros. Mas há situações que se arrastam por muito tempo. E basta um desistir.

 

Preciso de mudar tudo. Preciso lutar, ser forte, ser firme. Preciso ser sonhadora, optimista. Preciso ser eu.

Ela está à superfície, a recuperar as forças. E eu sei que ela vai sair desse oceano. Eu sei que vou ser eu outra vez, e vou encontrar o meu caminho para a felicidade. Mas agora pode já ser tarde demais... Amar só não basta. Há que ter quem amamos e quem nos ama ao nosso lado. Mas quando tudo conspira contra, pode não se chegar a viver nada...

 

Estou a voltar.

publicado por Quem ontem fui já hoje em mim não vive às 22:31
sinto-me:
música: Snow Patrol - Run

15
Jan 10

 

Pudesse eu parar de dizer que te adoro tantas vezes, e demonstrar-te antes tudo o que sinto por ti, onde as palavras não chegam, onde as palavras não bastam...

 

Pudesse eu compreender que as desculpas não se pedem, evitam-se, antes de cair nos mesmos erros que caio sempre...

 

Pudesse eu saber como agir, quando o que sinto por ti é muito maior do que já senti por alguém...

 

Pudesse eu fazer-te compreender que nem sempre as palavras são minhas amigas, e que na ânsia de te fazer compreender-me, para te sentir mais próximo, te afasto ainda mais...

 

Pudesse eu estar ai. Ai, onde pertenço, onde sempre pertenci, onde nasci para pertencer...ao teu lado, meu amor.

 

E aí já nada destas frases desconexas faziam sentido, quando o tempo se perdesse para sempre entre o pequeno espaço que separa as nossas bocas, os nossos corpos. Seriamos só tu e eu. Seriamos não. Seremos, como tanto desejo.

 

Sim, eu sei o que quero de ti. Também sempre soube. E agora que admiti já nenhuma palavra me basta. Porque o que quero és tu, e nem todas as filosofias, todas as teorias, todos os livros que li, que tantas vezes me ajudam a vocalizar o que sinto...nem tudo isso, nem toda a sabedoria do mundo, nem todas as palavras bonitas de amor, poderiam transcrever na realidade a alegria que me invade, o brilhos nos olhos, os imensos e coloridos sonhos que tenho contigo a todo o instante, a todos os minutos.

 

Sim, eu sei. Como já disse, as desculpas não se pedem, evitam-se, mas vou cair nesse pequeno erro pelo menos mais uma vez. Desculpa. Pelas minhas inseguranças, por alimentar o meu masoquismo ao lembrar-nos que estamos longe. Mas...eu sei que em breve estaremos juntos. E é nisso que vou pensar. Já faltou mais.

 

Se ainda me quiseres...

 

A tua "def". :) A tua, a tua, a eternamente tua...

publicado por Quem ontem fui já hoje em mim não vive às 23:01

26
Dez 09

 

 

publicado por Quem ontem fui já hoje em mim não vive às 22:12
música: Mafalda Veiga e João Pedro Pais - Paciência

13
Dez 09

Amor...

 

Muitas vezes aventuro-me a falar disso, de amor. Penso sempre que quanto mais falar, mais percebo do assunto, mas...

 

O que é o amor?

 

O amor é ...uma palavra, usada muitas vezes em vão.

                     um olhar, que transporta mais do que simples palavras.

                     um acto, que fala por si.

                     um negócio.

                     uma ilusão.

                     uma obsessão.

 

                     uma mentira.

                     uma ...dor?

 

                     UMA INCÓGNITA!

 

Mas, mesmo assim, sem saber explicar bem, eu sei o que é amor. É o que se sente quando se ouve uma gargalhada de uma criança, quando se sente o sol matinal a bater-nos no rosto - enquanto ao mesmo tempo se abre aquele sorriso bom -, são mãos dadas com alguém importante na nossa vida, é o beijo de uma mãe ou um pai ao seu filho(a), é uma boa acção...e muito mais!

 

Mas, isso a que damos o nome de amor, como tudo na vida, também tem o seu lado negativo.Traz dor, desespero, lágrimas...

 

O amor é a constante cura e doença.

 

E por mais que digamos que não acreditamos nele, no tal amor, todos queremos senti-lo na sua planitude. Todos queremos a mesma doença, o mesmo desespero, a mesma dor... Queremos estar partidos por dentro, só para que alguém venha, junte as peças todas e nos dê vida outra vez. E queremos sempre que quem nos conserte, seja quem nos quebrou. Sempre...

 

A esses que, tal como eu, têm um coração congelado pelas mil e uma razões, só poderei dizer uma coisa. Não sei o dia de amanhã. E sim, não acredito que alguma vez sofrerei da tal doença, apesar de, como todos, desejar senti-la (para depois me arrepender de a ter desejado).

 

Mas...

 

Nunca digas nunca. :)

Não mandámos na roleta russa.

publicado por Quem ontem fui já hoje em mim não vive às 04:27
música: Lykke Li - Possibility
tags:

11
Dez 09

 

 

publicado por Quem ontem fui já hoje em mim não vive às 23:58
música: Alanis Morissette - Incomplete

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