"Pedras no caminho? Guardo-as todas, um dia vou construir um castelo... " Fernando Pessoa

20
Jun 08

 

Os meus passos de criança não deixavam pegadas,

a tua mão de areia e de espuma

atraía-me para o teu seio

e eu partia numa braçada confiante

em direcção ao azul reluzente ao nível dos olhos

que me chamava sempre mais longe

em busca da vaga que seria enfim minha.

Hoje olho-te, mar,

e lembro-me das lágrimas vertidas,

do sal amargo do regresso,

da tua dor cambiante

que me traz o esquecimento

e eu permaneço lá, apaziguada e feliz,

a olhar a maré do presente

que já não é para mim o chamamento

da tua imortal imensidão.

 

 Isabel Meyrelles (Maio, 1997)

 

***

 

Não sei quem sou. Mas heide descobrir. Se o destino e Deus assim o quiser.

Os que afastei de mim, os que deixei para trás, talvez um dia me perdoem. Talvez nos voltemos a encontrar nesta estrada ou noutra qualquer.

Sei que já nada será como dantes. Muito se perdeu, pouco se ganhou. Mas ganhou-se alguma coisa. Ganhou-se a experiência, que as feridas, que hoje cicatrizam, nos dão.

Sim, eu sei. Se hoje olho ao espelho e não vejo ninguém nem nada, a culpa é minha. E sim, eu sei, que se hoje estou só a culpa é igualmente minha. A complexidade, afinal, não é nada de bom. Só nos torna seres da solidão, e nada mais.

Não prometo mudança. Prometo empenhamento. Prometo que será como o destino assim o quiser.

Se algum dia desistir, mais uma vez, de mim, do mundo e do destino, que desista. Se sofrer, é porque o mereço. Se morrer é porque o mundo pertence aos fortes.

 

publicado por Quem ontem fui já hoje em mim não vive às 16:45

18
Jun 08

 

Que fazer quando não há mais para onde olhar? Quando a nossa vida não sai do mesmo sítio?

Eu, aquela menina que quando era pequenina andava sempre de sorriso estampado na cara, que proclamava aos sete ventos que queria ser veterinária, jornalista, cantora, bailarina, no fundo aventureira, é hoje isto. Não sabe o que fazer, não como e por onde avançar. Não sabe o que é amar e ser amada. Não sabe como sair desta teia de dramatismo, de sentimentalismo barato e repetitivo. Nem sabe mais o que é e se alguma vez soube o que sempre teve como coisa mais importante na sua vida: a amizade...

O que fazer se tem 20 anos e se sente a pessoa mais inútil à face da terra?

Sinceramente, não sei mais o que fazer. Apetecia-me desistir. De vez. E deixava de andar aqui às rodas sempre com a mesma coisa nesta existência inútil. Não sei mais o que heide fazer. Tudo na minha vida são cenas recorrentes de uma peça de teatro chata e interminável. E dolorosa. Dou demasiado valor aos amigos. Pois bem, até hoje, a grande maioria deles desistiu de mim e dos meus traumas. Quantas vezes fui abandonada? Eu sei lá... Não sou “fixe” o suficiente. Sou chata, com os meus dramas, o quanto baste. Sinto que os meus “amigos” têm vergonha de me chamar como tal. Para dizer a verdade, eu sei que não me consideram como tal. E por isso “fogem” da minha beira, para andar com a “maltinha fixe”. E eu já dei, e continuo a dar tantas “oportunidades” a esses “amigos”. E eles continuam a fazer uma cara de constrangimento e a dizer, por outras palavras, “não, não quero ser teu amigo. Deixa-me em paz, sua chata que já não te posso ver à frente”. E eu humilho-me. É o medo de ficar só. Mas estas minhas crises, em que na verdade venho à tona, vejo a realidade tal como ela é, vejo que já estou só. Sinto que se agora disser “vou-me atirar desta janela”, não vai haver ninguém que diga “não vás. Gosto de ti, fica aqui comigo. Dar-te-ei o meu ombro para que chores, e ajudar-te-ei a ultrapassar tudo. Não tenhas medo. Nunca te abandonarei”. Já não acredito em nada nem ninguém... Estou só. E se chorar todas as noites, ninguém saberá. E não, não é porque não conto. Sou tão burra, ingénua, estúpida, que quando me perguntam (seja quem for) “estás bem?” eu “despejo tudo”. Talvez queira ter um bocadinho da atenção das pessoas, e quando me abrem uma pequena porta, eu escancaro essa porta, e instalo-me, eu e todos os meus dramas. Mas já quase ninguém pergunta. Eles já sabem como sou. A chata. Quem quer aturar uma chata repetitiva?

Sinto-me sem saídas. Sinto que a única solução é exactamente a única que não tenho coragem de seguir. Sou muito medrosa, muito fraca, até para isso.

Talvez um dia ganhe coragem... E acabou. Finalmente acabará.

publicado por Quem ontem fui já hoje em mim não vive às 02:06
música: Colors - Amos Lee ft. Norah Jones

15
Jun 08

 

Todos os dias vivemos

os nossos pequenos apocalipses

como se nada fosse,

carregamos

a indiferença como um laço de seda

à volta do pescoço,

a morte faz-nos sinal

em cada folha primaveril

da árvore-noite,

aquela que nos chama

com uivos de lobo

quando a olhamos,

barricados atrás das nossas janelas

de presos à residência

sobre este planeta que corre

na negra água cósmica.


Isabel Meyrelles

publicado por Quem ontem fui já hoje em mim não vive às 00:27
música: I belong to you - Lenny Kravitz

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