"Pedras no caminho? Guardo-as todas, um dia vou construir um castelo... " Fernando Pessoa

27
Jul 15

Tango. Poderia ser esta dança a representação da vida? Uma dança díficil, sofrida, cheia de sentimentos contraditórios, mas que perante o amor e a paixão, abranda, transforma a fúria em contemplação.

 

Fiz da contemplação a minha arte. Mas contemplar não basta, porque para conseguir interpretar essa arte, há que sentir, há que viver, sentir o sangue a correr veloz nas veias, como essa vontade de viver, de ser, de fugir, gritar ou somente de ouvir o eu. Aquela voz, suave, que se eleva no silêncio do contemplar do momento. Essa arte, exige tanto, não vem só, não vem com ninguém, somente a vida nos dá as ferramentas, cabe-nos a nós construir a jangada. 

 

E no meio das equações dificéis, é tão fácil simplesmente baixar os olhos, e simplesmente não ver. Tolo de quem pensa que olhos fechados afastam a contemplação. Vemos com tanto de nós... Não podemos fugir do que está dentro de nós, tal como não podemos fugir da chuva quando ela aparece de repente num dia de verão. 

 

Caminhar por entre as gotas da chuva tem o que se lhe diga. É uma metáfora que serve de barco à ilusão de que podemos fugir à vida, ao imprevisto, ao que foi feito para nos ensinar o que temos que aprender. E há tanta gente que viva na ilusão, muitos sem se dar ao trabalho de se desculpar em metáforas. 

 

O que realmente acontece dentro de nós, é, ao ínicio, como a explosão do Big Bang que criou o Universo. No nosso Universo particular, muitas coisas surgem de surpresa, sem avisar como a chuva de verão, envoltas em mistério, como uns passos mais apaixonados de Tango que brotam da nossa vontade de reagir ao sentimento desconhecido e arrebatador. No choque da criação de uma dúvida, de uma suspeita, de um desejo, todos nos sentimos confusos, atordoados. Então, tal como a criação do Universo, pequenas estrelas começam a aparecer, tímidas, por todo o infinito negro e desconhecido. E a luz é sempre tão forte que nos esquecemos de dar nome ao negro, e só vimos a luz. Quando estão perto, ofuscam os olhos, e volta a confusão, o encantamento de algo tão belo mas impossível de ver nitidamente, ai surge a verdadeira contemplação. Mas ela só é possível quando olhamos primeiro atentamente as estrelas que estão mais longe... As estrelas mortas, mortas sim, mas que existiram, e a sua luz que se vê ao longe torna-as em pequenas particulas de imortalidade. 

 

Só vemos a luz do presente, os pequenos sinais da vida, olhando para o passado, para aquela luz da estrela mais bela que já morreu, apesar de estar ali. A arte da contemplação é essa: aprender com o passado a ver atentamente o presente, tornado-nos ainda mais sábios e sensatos no futuro. 

 

Então, dancemos este Tango chamado vida? Ou seremos simplesmente espectadores das danças alheias? 

 

 

publicado por Quem ontem fui já hoje em mim não vive às 22:04

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