"Pedras no caminho? Guardo-as todas, um dia vou construir um castelo... " Fernando Pessoa

22
Jan 16

Há uns dias atrás passei por uma paragem de autocarro, e vi um Sr. de cadeira de rodas a tentar entrar num autocarro público da cidade do Porto. Supostamente, estes autocarros públicos estão preparados para pessoas com deficiência física, ao serem mais baixos e terem uma plataforma elevatória que lhes permite entrar e sair com bastante facilidade. Pois, supostamente têm. Esse Sr. tentava, com todas as limitações que tem, puxar a plataforma, que supostamente se abre automaticamente. Mas não, ela não se abria de maneira nenhuma. Eu tentei, um outro Sr., o próprio motorista tentou abri-la...nada. O Sr., de olhos tristes e voz conformada, disse ao motorista "é o 4º autocarro que passa e tem o mesmo problema." Enumerou vários números de autocarros que já passaram onde ele, ali, só, preso a uma cadeira de rodas e num dia chuvoso, tentou entrar, sem sucesso. O motorista ofereceu-se, junto com outras pessoas, para o ajudar entrar doutra maneira. O Sr., cabisbaixo recusou. "E depois, como é que eu saio? Não, deixe estar..." 

 

O medo de incomodar o próximo, de ser um peso maior que o próprio peso que já carrega, era evidente. 

 

Para quem não tem esse tipo de problema, não é possível ver o porquê da urgência em concertar algo tão simples. E se fosse uma porta normal que não abrisse? Talvez o autocarro parasse até estar apto para circular. Mas uma rampa, fundamental para um portador de deficiência física, é algo secundário que pode esperar. Todos os dias colaboramos numa segregação constante, de forma inconsciente, que leva a que muita gente que já vive em solidão e completamente limitada, acabe ainda por se sentir a mais, vivendo na sombra, sem querer incomodar ninguém, sem querer sem um fardo.

 

Este tipo de segregação já acontece desde que surgiu a espécie humana. Mas foi evoluindo de uma forma cruel, que não conhece limites. Então, hoje em dia, existem milhares de culturas distintas no Mundo, mas será que algum desses sítios é aquele sítio onde todos são olhados como iguais, têm as mesmas oportunidades e vivem em harmonia, trabalhando em conjunto para o bem da comunidade?

 

Na Antiga Grécia, onde surgiu o conceito de Democracia, a ideia era tão boa...uma boa utopia. E com a evolução e as diferentes culturas surgiram várias formas de manipular massas, de furar o sistema,de segregar pessoas da sua própria cultura ou outras, com a desculpa que eram precisamente...diferentes.

 

Ser diferente, a grande virtude de sermos Humanos, demarcou-nos e demarca-nos ainda em praticamente tudo. Não nos basta o facto de sermos únicos, de não haver mais ninguém num universo de aproximadamente 7 biliões de pessoas. A ambiguidade e complexidade do Ser Humano leva-nos a separar o bom do mau, mas isso depende da perspectiva de cada um. Então fica a pergunta, o que é realmente bom e o que é realmente mau? A ambição pode ser visto como algo bom, mas quando isso leva a que esse pequeno (grande) facto de sermos únicos não ser suficiente, então transforma algo bom em mau. Para tudo na vida é necessário um meio termo, mas meios termos não faz parte dos genes humanos. Pelo menos não na esmagadora da maioria. Vou usar o meio termo e não meter toda uma espécie no mesmo "saco". 

 

Sempre houve essa necessidade de termos mais: mais que os outros, mandarmos mais que o outro, ser mais sábio. Ponto, e recomeça a conversa do meio termo, do bom e do mau. O saber não ocupa lugar, diz o provérbio. É bem verdade, cultivar-nos ajuda-nos a atingir um patamar onde esse meio termo, a contenção e a simplicidade nos ajudam a ter uma vivência mais plena e mais atenta ao que nos rodeia, de forma positiva e activa. Mas, a sabedoria também pode servir o lado oposto, o do mal. E em tantas situações o Ser Humano aproveitou-se do facto de saber mais num plano que lhe favorece, para ludibriar quem vive a sua vida de forma ingénua e inocente, virando essa forma de viver contra eles mesmo, culpando isso mesmo por terem sido enganados. Assim fizerem os primeiros comerciantes de escravos com as pessoas africanas, e o mesmo aconteceu com os colonizadores que queriam converter os índios dos países que "descobriram" e, como tal, agora era deles.

 

Em pequenos passos se traçaram personalidades de nações inteiras: nos EUA os europeus colonizaram o território, vendiam "pretos" em praças públicas como quem vende um naco de carne, e chamaram mais europeus para conquistarem terras através de corridas e afins - a isto chamaram de justo - sendo que antes "limparam" a terra dos seus verdadeiros donos, os nativos americanos, para poderem fazerem o que é justo à vontade. Assim se criou a terra das oportunidades...oportunidades para um, tortura para outros. A escravidão era algo natural, algo que era amplamente aceite e que toda a gente foi conivente, só porque essas pessoas eram diferentes, "bichos". Mas, voltando ao uso do bom senso, quem seriam os "bichos" nessa altura? Não é natural usurpar a vida de alguém, de outro ser humano, se apossar dela e fazer dela o que bem entender, seja isso violar, matar, torturar, pôr a trabalhar em troco de nada. Mas nessa altura era "normal"... E para quem olha horrorizado e tente imaginar como seria viver assim, pense que isso ainda hoje acontece um pouco por todo o Mundo, mas desde que não seja à nossa frente, e passemos longe por esses lugares, podemos viver alegremente na ilusão que isso é História, Passado e não Presente. 

 

Esse hábito de conviver com a maldade e crueldade humana está impregnado em toda a gente. Fechar os olhos é já automático, olhar de lado não tem nada de mal, e então falar em voz baixa de alguém que tem o cabelo assim ou assado, de 2 pessoas do mesmo sexo que se amam e não escondem isso em público, ou automaticamente pensar que um mestiço ou "preto" é mais propenso a roubar-nos que o Sr. engravatadinho que passou ao nosso lado, e até nos tirou a carteira do bolso sem nos apercebermos. Somos, no geral, uma sociedade hipócrita e altamente preconceituosa. E isso vê-se claramente na recente crise dos refugiados que estão a chegar à Europa. 

 

Nesta altura, a nossa identidade e personalidade altamente preconceituosa está completamente exposta e não adianta esconder, mesmo usando a suspeita que no meio deles há terroristas. Além da tão boa desculpa "primeiro temos que usar os nossos e depois os outros", sendo irónico que tanta gente fale assim, quando nunca tiveram um gesto na vida para ajudar quem quer que fosse, e morrem de medo de um mendigo que se aproxime a pedir comida. Além disso, se formos pela lógica, porque é que os terroristas precisam se infiltrar, correr risco de vida para chegar à Europa se, nomeadamente, o estado islâmico tem pessoas com passaportes de vários países europeus nas suas fileiras, que podem simplesmente apanhar um avião com a desculpa que vão visitar a família? Depois vem mais uma desculpa: eles são DIFERENTES, são de uma cultura retrógrada, e vão atacar as nossas mulheres, e criar conflitos na nossa sociedade. O que aconteceu em Colónia, na Alemanha foi então ouro sobre azul, que validou todas as suspeitas levantadas. Mas aí voltemos ao bom senso e à lógica: porque é que 1000 homens, que passaram tantos dias de sacrifícios, correram perigo de vida, eles e as suas famílias (muitas mulheres e crianças incluídas) iriam chegar finalmente vivos à Alemanha, e iriam se organizar para atacarem mulheres? Os grupos de extrema direita foram quem divulgaram tudo isto, notícia que só surgiu 5 dias depois de, alegadamente, terem acontecido. E aí, é só juntar dois mais dois... 

 

Tantos europeus, e pessoas de outros continentes, culturas, etc., falam do alto da sua arrogância e preconceito como se aquele povo, que já sofreu tanto, mas tanto, que não temos sequer noção das atrocidades que viveram ou presenciaram, fosse diferente, inferior ao nossos. Isto é somente uma hipocrisia que sempre existiu a vir à tona. Os franceses foram pioneiros no que diz respeito a catalogar os direitos humanos, abriram portas à imigração, mas somente porque lhes convinha, porque precisavam de pessoas que trabalhassem no que eles não queriam trabalhar, e praticam diariamente (não todos, claro) um preconceito demarcado contra imigrantes, descendentes de imigrantes, pessoas de cor, raça diferente, cultura diferente. Se tentarmos perceber o porquê dos incidentes nos subúrbios de Paris à uns anos atrás, chegamos facilmente à razão pela qual a França é o país ocidental que mais cidadãos da sua nacionalidade tem nas fileiras do Estado Islâmico. Aí reside a ironia: os precursores dos direitos humanos ajudaram à criação de bairros, gerações inteiras completamente marginalizadas e que dificilmente terão acesso às mesmas oportunidades de trabalho, de qualidade de vida que os franceses "puros" tem, mesmo que já sejam a terceira, quarta, quinta geração a nascer em França.

 

A Merkel foi das poucas lideres europeias que abriu os braços aos refugiados. Por esta altura, deve estar arrependida, por certo, mas ela não o fez por ser uma alma caridosa e preocupada com os sírios e demais povos que fogem de realidades que nem sequer podemos imaginar. Simplesmente a Alemanha está no topo da economia europeia, detêm a hegemonia do poderio económico o que resulta numa necessidade muito grande de mão de obra. Ora, tendo em conta de que os alemães não estão lá muito dispostos a se dedicarem a trabalhos onde não ganhem o que achem justo, e os europeus do sul deixaram de acreditar em contos de fadas, acolher um povo sem perspectivas de futuro, desesperado por uma oportunidade para ter uma luz ao fundo do túnel, pareceu-lhe a oportunidade perfeita: pessoas eternamente gratas vão de encontro à demande de mão de obra, e ainda por cima barata! "Ora, se vos acolhemos, demos de comer e uma possibilidade de lar, o mais justo é retribuir". O "justo", sempre o "justo". 

 

Se procuramos por sociedades bem sucedidas e que efectivamente funcionam, podemos olhar para os países escandinavos, como a Noruega, Finlândia, Suécia... Pois, são países que tudo parece funcionar bem, mas quem tem em vista imigrar para lá (são destinos óptimos para tal) não espere facilidades. Estes países agradecem mão de obra, mas mão de obra qualificada. Para se viver numa sociedade quase perfeitamente igualitária, há que aceitar que temos que ter mérito para lá chegar e concorrer de igual para igual com os povos locais, ou outros. Mas o sistema do "méritometro" é outra versão (completamente distorcida) de preconceito e segregação. 

 

E porque não falamos no nosso lindo país, Portugal? Pois, nisso posso falar bem, já que sou portuguesa e (infelizmente) vivo aqui. Já fomos a nação mais rica e poderosa do mundo, até que, aquando das invasões francesas, D. João VI decidiu fugir para o Brasil com a sua corte, e abandonar os portugueses à sua sorte. De nação poderosa e respeitada, passamos a lambe botas eternamente gratos aos nossos amigos e aliados ingleses, que ocuparam Portugal enquanto Carlota Joaquina se divertia com as suas conquistas amorosas e D. João VI dedicada grande parte do seu tempo a...comer. Pela imensa gratidão, doamos grande parte do nosso território em África, herança (essa também manchada por algumas práticas ditas "normais" na época) de um outro tipo de povo português, corajoso e empreendedor, e fomos descendo, descendo, descendo, até chegarmos aos dias de hoje. Nos últimos anos, tivemos um primeiro-ministro, que "à là D. João VI" nos abandonou, deixou Portugal de tanga, para aceitar o tachinho de Presidente da Comissão Europeia. Tivemos outro primeiro-ministro que roubou descaradamente o que pode, demitiu-se quando não estava mais para aturar isto, foi estudar filosofia e Paris, onde vivia numa casa luxuosa que comprou com o direito que roubou dos contribuintes, e, tal como cereja no topo do bolo, voltou para Portugal...para ser comentador de política no canal PÚBLICO!! Lá voltou para França para uns tempos mais tarde ser preso por corrupção. Hoje está em liberdade, e continua a aparecer com a cara mais deslavada que alguém poderia ter. 

 

Continuando nos belos chefes de estado que tivemos, falamos também do último antes deste, que aquando das reuniões sobre a crise na Grécia se mostrou firmemente contra a ajuda monetária à Grécia, com o pormenor de ser primeiro ministro de um país que estava sob resgate financeiro do FMI e, tal como a Grécia, sob os olhares atentos da União Europeia. 

 

Aqui, há muitos anos, viveram-se os tempos das vacas gordas. Havia dinheiro, o banco emprestava dinheiro a toda a gente, e vivia-se bem. Era um povo altamente desqualificado, que teve acesso a pouco educação. Então, a geração seguinte cresceu a ouvir "se queres ser alguém na vida, estuda, meu filho". E nós estudamos. Investimos em nós como nem loucos, gastamos dinheiro, contraímos empréstimos, para "ser alguém na vida". E aí, chegamos ao mercado de trabalho, muita gente sem nunca ter trabalhado na vida, ou seja, trabalharam para o bronze na doce vida de estudante. E aí, quando estavam aptos, depois de terem investido em si mesmos, onde estava o trabalho? Trabalho havia, mas era igual se tivessem estudado ou não: trabalho mal pago, horas e horas não remuneradas, profunda instabilidade e certezas para o futuro, praticamente nenhumas. Estamos a pagar os erros, as dívidas das gerações passadas, estamos a pagar algo para o qual não contribuímos em nada. E ainda tivemos um primeiro ministro, o mesmo "rico" que era contra ajudar a Grécia, que nos disse que se não estávamos satisfeitos, que fossemos para a Grécia. Um homem que nunca trabalhou na vida, que até aos 37 anos só tinha no currículo cursos universitários e acções partidárias. Os "padrinhos" do partido lá lhe arranjaram trabalhos em administrações de grandes empresas, ou seja... este homem, que nos manda imigrar se "não estivermos contentes" nunca trabalhou na vida. Nunca teve que ser tratado como menos do que merecia, nunca teve que suportar o facto de colegas que entraram à bem menos tempo que eles ganharem mais que ele, nunca trabalhou horas de graça porque "se não concordas as portas da rua estão abertas", nunca teve que viver com um salário que nunca chega. 

 

Então, pensando nisto tudo, como é possível que após milhares de anos de evolução, ainda estamos neste ponto? Num ponto em que olhamos para os que sofrem em África como coitadinhos esfomeados, mas somente isso, porque se estão longe não é problema nosso; num ponto em que nos achamos muito humanos porque defendemos os nossos em detrimento dos estrangeiros/ refugiados/ pseudo-terroristas, mas na verdade nada fazemos pelos nossos e até o olhamos de lado? Num ponto em que o simples facto de se ter deficiências físicas é um entrave tão grande no dia a dia quem nem dá vontade de sair de casa?

 

Somos, mundo "civilizado", uma sociedade profundamente doente. De um lado do mundo, há quem morra de fome, do outro há toda uma geração que sofre de uma doença depressão, que tem distúrbios alimentares que os levam a comer e comer até serem obesos, uma sociedade que auto-aniquila e segrega quem não viva segundo as suas regras. Felizmente, há muita gente que vê o Mundo como um todo, que usa a cabeça para pensar, e não a dá voluntariamente como espaço vazio para manipulação alheia. Ainda há esperança, tanta como a hipocrisia e arrogância da aristocracia falida e patética que acha que vale mais do que o sorriso de uma criança, do que alguém que só quer viver praticando o bem no meio das bombas que caiem à sua volta. 

 

publicado por Quem ontem fui já hoje em mim não vive às 19:34

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