"Pedras no caminho? Guardo-as todas, um dia vou construir um castelo... " Fernando Pessoa

08
Jul 19

Na vasta planície da minha solidão, a vontade de ouvir outra coisa que não o silêncio, é como a miragem de um oásis. Ela existe, mas já me acostumei a vaguear sozinha pelo cosmos da minha existência. 

Comigo trago perguntas, trago tristezas, trago lágrimas. Trago saudade...saudade de casa. Porque aqui tudo é tão estranho. Há quem veja beleza na tristeza, e quem deboche do amor próprio. Talvez, quem sabe, eu aqui seja só um corpo cansado, pesado, à procura de uma copa verdejante de uma árvore, neste deserto imenso. 

Talvez o que procuro é me deitar nesse solo cheio de raízes, e olhar para as nuvens, depois para as estrelas que já padeceram, para depois deixar o meu olhar se prender nos planetas desconhecidos. 

Talvez tenha que voltar à raiz, e dela crescer; talvez deva perceber que procuro saber mais sobre o infinito, sem saber por onde começar. 

É difícil. Ás vezes quero contemplar em silêncio, outras vezes danço sem parar por dentro. 

A cada passo que dei para me afastar deste plano, deixei um pouco de inocência e ingenuidade em cada esquina, e em cada lágrima desapareceu um pouco da alegria e da curiosidade pelo desconhecido. Porque quis ser cientista sem perder a fé. Mas não encontrei certezas, e é cada vez mais difícil acreditar de olhos fechados...e até de olhos abertos.

Tem dias em que só quero fechar os olhos e lembrar-me do que já aprendi. Tem dias em que é difícil ter coragem e vontade de abrir os olhos para seguir rumo ao Horizonte. 

Após os pequenos momentos de desassossego e solidão, lembro-me que depois de chover aparecerá um novo arco-íris. Mas porque não me basta contemplar? Sinto que tenho alma de pássaro. Gostava de aproveitar o momento, mas sinto que tenho que partir. O meu passo segue a um ritmo de tristeza, só, em silêncio e em dúvida. Mas não posso olhar para trás. Posso lembrar, mas o viver reside ali no horizonte, e eu quero percorrer todas as cores do arco-íris, até que este vazio seja passado, e ao chegar à cor purpura, aquela última cor do arco-íris, que esta seja um recomeço com um passo mais feliz, no caminho que me leva de volta a casa.

 

 

publicado por Quem ontem fui já hoje em mim não vive às 21:02

01
Jul 19

O que é ter tudo?

É ter dinheiro? Beleza física? Amor? Ou ter uma boa casa, ou um bom carro?

O privilégio não é de quem tem "tudo", mas de quem cresceu a viver com pouco. Mesmo assim, inconscientemente, desejamos que esse pouco seja um mais, mas materialista.

Nunca poderemos ter tudo. Mas enquanto aqui estivermos, teremos tempo. Teremos oportunidades.

Como diz o narrador do Principezinho, os adultos adoram números. E aí, contamos o tempo, sem nos apercebermos que o tempo é relativo. Numa pequena janela com vista para as estrelas, um minuto pode nos devolver milhares de memórias, e nessa viagem, podemos descobrir coisas sobre nós, sobre a vida e sobre os outros. Anos de aprendizagem se desdobram e se revelam numa pequena janela, num minuto cronometrado do relógio, mas que na imensidão do nosso universo pessoal, pode equivaler a 1 ano luz. 

Num sorriso sincero duma criança, podemos sentir muito mais felicidade, do alguma vez todo o dinheiro do mundo nos poderia dar. 

Beleza? Há algo mais belo e complexo do que o nosso mapa de constelações? Não haverá beleza na tristeza e na dor das feridas abertas, ou nas cicatrizes que ainda nos preenchem, mas há uma beleza imensa em acordar hoje mais forte do que ontem. Nem todos conseguem sentir que se fortaleceram nesta vida. Mas aqui, ou na próxima vida, cada dia é mais um passo. Cada sorriso, cada "obrigada", cada suspiro silencioso de paz, nos guiam e nos confortam. 

Viver não é fácil, para ninguém. Com ou sem dinheiro, com ou sem beleza (física), haverão sempre mais perguntas do que respostas. 

E eu sei que é tão difícil viver sem julgar ninguém, mas atrás de cada rosto, há uma alma, uma História. Há todo um universo infinito e em expansão que desconhecemos. Mais difícil ainda, é julgarmos-nos a nós próprios, aceitarmos os nossos defeitos e qualidades, aprendermos a sermos melhores. Mas, como diz a música "cada um sabe da alegria e da dor que trás no coração". Se não estamos cientes da imensidão que somos, como poderemos estar cientes da imensidão de cada ser que nos rodeia?

Humildade. Sei que nós nos pomos no centro da vida. Mas basta olharmos para o céu, para perceber que fazemos parte de algo bem maior. Se no Universo imenso existem tantas estrelas, porquê querer que apenas uma brilhe mais do que outras? Nós, somos este pontinho pequeno, olhando para um corpo celeste no passado, para a a beleza da luz que irradia, mas que na verdade representa a sua morte. Estamos tão longe, e somos tão pequenos, que só vemos um pequeno ponto de luz, de algo que já foi, talvez, o centro de um outro sistema solar. 

Este, aqui, é só um corpo com prazo de validade. Esta vida é só uma passagem, e o que levamos é a aprendizagem. A beleza está em aproveitar o intervalo, consciente de que se fosse fácil, não haveria razão para tudo isto.

 

publicado por Quem ontem fui já hoje em mim não vive às 23:17

Num qualquer ponto deste vasto chão, alguém observa o céu. Tudo daí parece imenso. O que nos rodeia, e o que nos compõe.

 

A viagem sempre começa num pequeno segundo de contemplação. Quando fazemos uma pausa da banalidade do dia a dia, quando olhamos aquele céu, aquela estrela, aquela pequena folha que abana com o vento... quando voltamos à origem de tudo, dão-se os pequenos momentos de clarividência.

Ás vezes a viagem inicia-se sozinha, e leva-nos junto numa pequena jornada a um canto impresivivel do nosso infinito pessoal.  Sim, infinito. Podemos fazer de conta que sabemos de tudo sobre nós, mas sabemos tão pouco. Estamos alegremente perdidos entre a multidão que nos rodeia. 

No fundo, todos nós estamos à procura de respostas, enquanto percorremos o caminho para casa. A cada passo estamos mais perto do virar da esquina, mas a cada esquina estamos mais longe de chegar a casa. Porque o nosso corpo está na Terra, e a nossa alma, essa criança curiosa e sonhadora, voa em forma de cometa algures em Saturno ou numa qualquer cauda da Via Láctea. 

Por isso é que é mais fácil respirar e sorrir quando olhamos para as estrelas. Porque quando olhamos em volta sentimo-nos sós. A gravidade torna-nos egoístas e presos a um só chão. Mas, aqui, os pés que os pisam não são tidos todos como iguais. Apesar de todos nós estarmos perante épicas batalhas internas, vivemos num mundo desigual. 

Quando olhamos o céu, num pequeno ponto distante, a luz da nossa estrela reluz livre, à espera que novos planetas e satélites a acompanhem, e formem a próxima fase do nosso sistema solar. 

Aqui, neste corpo pequeno e minúsculo, necessitamos aprender, evoluir. E tudo está feito para que seja extremamente díficil, para que não haja certezas, só perguntas. Porque a nossa alma é luz, mas o espaço é negro. E solitário. 

Ao olhar o céu não se vê somente as estrelas e as constelações. Inconscientemente, sentimos a saudade de casa, sem saber que, afinal, Saturno é aqui tão perto, e que, como dizia Pessoa, afinal, nós não somos do tamanho da nossa altura; somos do tamanho do que vemos.

Saturno

 

publicado por Quem ontem fui já hoje em mim não vive às 01:40

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